Palavra de ontem... na vida do hoje

Aqui serão deixadas reflexões sobre o sentido das Escrituras: a Palavra que se diz de Deus é e será sempre fruto da atenção de pessoas de carne e osso dedicaram ao "que se passou nestes dias" (como dizem os discípulos a Jesus a caminho de Emaús, Lc 24)

sábado, março 03, 2007

Domingo II da Quaresma




Lucas 9:28-36 Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar. 29Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante. 30E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, 31os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. 33Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. 34Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. 35E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predilecto. Escutai-o.» 36Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.


Muitas vezes se pensa que Jesus era uma pessoa pacífica e calma: por causa disso, indica-se que o cristão também deve ser muito calmo. Há razões válidas para se defender a paz de espírito, e é verdade que o histerismo é insuportável. Mas a verdade é que o Filho de Deus não era uma figura veneranda que encaixava todos os golpes baixos: ele era olhado como alguém muito determinado. Lucas conta que logo na sua primeira intervenção em Nazaré Ele conseguiu deixar todos furiosos e com desejo de o matar, Lc 4, 29! Quando era criticado Ele fazia autênticos discursos críticos, Lc 11, 39-52.


É fácil entender que havia muita discussão sobre Ele: muitos não gostavam do seu estilo de vida nem das suas ideias. Era mesmo muito difícil admitir que fosse pessoa de bem um homem que não parava de criticar tudo e todos! Onde estava a verdade? Quem era este Jesus? O que queria? No episódio da transfiguração está projectada a luz da Páscoa sobre o período da vida terrena de Jesus. Porque é que Moisés e Elias aparecem? Porque eram dignos representantes da sagrada tradição de Israel... mas eles conversam com este Jesus porque Ele é o Filho Eterno do Pai. É a verdade que João descreve no seu prólogo com uma linguagem filosófica: Ele é igual a Deus, Ele é Deus (cf. Jo 1, 1).


Lucas usa símbolos simples e eficazes:


-o monte é um lugar de revelação por excelência (Ex 3, 1: a sarça ardente; Ex 19, o Sinai);
-o rosto e as roupas que se tornam diferentes lembram Moisés depois de descer do Sinai: quem o via ficava com temor, Ex 34, 30.
-as tendas podem recordar a tenda do encontro, lugar de segurança para o povo no deserto. Há aqui a repetição do contraste entre Moisés e Jesus: a salvação não é pacífica, mas vem através da sua morte em Jerusalém, Ex 27, 21.
-o sono e o medo recordam a primeira leitura: como Abraão, estes discípulos são envoltos num torpor estranho... a presença de Deus assusta aqueles que não estão preparados para assumir todas as consequências. O mesmo acontece a Jacob, Gen 28, 16-17.
-a coluna de nuvem tinha conduzido o povo para fora do Egipto, Ex 13, 21. Era a presença de Deus porque Ele estava nessa coluna.


O ponto mais importante é a declaração que explica o ponto de vista divino: ninguém é mais próximo de Deus do que este homem. Contra as dúvidas que surgiam, a verdade brilha e ilumina cada um dos que a procura. Não foi o povo que impôs a Deus o que queria e o que esperava: foi Ele que apresentou uma novidade, para transformar as consciências.
A mentalidade humana está sempre preocupada com coisas pequenas e insignificantes: quando é confrontada com os pensamentos de Deus, pode sentir-se tremer um pouco. A novidade que Deus representa é mesmo razão para se sentir medo e insegurança.


Mas o caminho está traçado: é maior bem aventurança dar do que receber (frase atribuída por Paulo ao Senhor em Act 20, 35). A transfiguração constrói-se em volta da dificuldade em ver em Jesus mais que um homem... e responde a esse desafio porque a sua vida não seguia uma perspectiva de grandeza ou sucesso.


E a nós, o que impede de ver a glória de Cristo?

Boa semana!

Teodoro Medeiros